A Ancilostomíase e os riscos para a saúde pública

Há muito tempo os parasitas convivem com o ser humano, levando a interação entre esses seres ao processo evolutivo que deu origem aos parasitos humanos facultativos ou acidentais que conhecemos nos dias de hoje.


Estima-se que existam mais de 100 espécies de parasitas intestinais, que afetam quase 500 milhões de indivíduos em todo o mundo, principalmente em regiões com pouco ou nenhum desenvolvimento em saneamento e em saúde e higiene pública.


Dentre as principais espécies que afetam e parasitam o ser humano, existe um grupo de parasitos muito relacionados com as características epidemio-sanitárias das regiões em que possuem prevalência elevada – os Ancilostomídeos - parasitas intestinais que afetam seres humanos e outros mamíferos e que se distribuem em mais de 100 espécies em todo o mundo, sendo 3 delas mais relatadas quando o foco são as infecções parasitárias humanas, sendo eles Ancylostoma duodenale, Ancylostoma ceylanicum e Necator americanus.


A infecção parasitária decorrente dos Ancilostomídeos pode provocar processos patológicos à curto e longo prazo, possuindo altos níveis de morbidade, podendo também levar indivíduos não-imunocompetentes à óbito. A doença é conhecida popularmente como amarelão e possui, no Brasil, dois agentes etiológicos bem caracterizados: Ancylostoma duodenale e Necator americanus.


Possuindo distribuição cosmopolita, esses parasitos afetam principalmente crianças acima de 6 anos, adolescentes e indivíduos com idade acima de 60 anos. No Brasil, áreas rurais com pouco desenvolvimento em saneamento básico costumam ser os principais focos de prevalência da infecção parasitária, que em alguns casos pode ser grave e fatal. Hábitos como andar descalço ou brincar em solos contaminados por fezes também favorecem a transmissão e infecção do parasito entre os indivíduos.


Após a infecção primária, o parasito pode ficar em incubação por até 2 meses. Os parasitos não são transmitidos de pessoa a pessoa mas possuem uma resistência elevada e podem viver de forma livre no solo por semanas.


Seu ciclo de vida é semelhante entre as duas principais espécies que parasitam o ser humano. Tendo início com a liberação de ovos nas fezes pelo indivíduo infectado, as larvas eclodem em um tempo médio de até 72 horas, e começam a percorrer o solo em seu estado larval I. No solo, o parasita começa a se desenvolver até atingir uma fase que o permite penetrar em mucosas e no epitélio estratificado humano, conhecida como larva L3 ou filarióide.


Quando indivíduos sadios brincam em solo contaminado, descalços ou sem o devido cuidado de não levar as mãos à boca, a larva penetra na pele ou mucosa e vai em direção à corrente sanguínea periférica, que a leva para a mucosa estomacal, onde penetra o estômago e segue em direção ao intestino, onde irá desenvolver sua fase adulta e espoliativa, agarrando-se à mucosa intestinal com o auxílio de dentes laminados que cada espécie possui, que fazem o processo de fixação e espoliação sanguínea do verme. Com o tempo, o indivíduo passa a perder sangue de forma crônica, em pequenas quantidades contínuas, enquanto o parasita se alimenta e se reproduz em seu intestino, liberando mais e mais ovos nas fezes e reiniciando o ciclo.


A ancilostomíase pode ser assintomática em casos de infecções leves, entretanto, casos de complicações gastrointestinais apresentando náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e flatulência também já foram registrados.


Em crianças, a alta carga parasitária pode promover hipoproteinemia e atraso no desenvolvimento cognitivo, físico e mental. Com frequência, dependendo da carga parasitária, acarreta em uma anemia carencial – a anemia ferropriva, além de hipoproteinemia, podendo levar à insuficiência cardíaca.


O diagnóstico é realizado através do exame microscópico das fezes, uma vez que os parasitos A. duodenale e N. americanus produzem ovos com características semelhantes que podem ser identificadas após métodos de preparação das fezes. Os ovos possuem formato oval e casca fina, podendo também ser detectados prontamente em fezes a fresco. Procedimentos de concentração são imprescindíveis para diagnosticar infecções leves, que podem agravar-se em poucos dias. Se as fezes não forem mantidas resfriadas e examinadas em algumas horas, os ovos podem chocar e liberar larvas que podem ser confundidas com larvas de Strongyloides stercoralis.


Os principais achados laboratoriais incluem eosinofilia e redução dos níveis de hemoglobina sérica, ferro sérico e no número de eritrócitos. São de grande problemática para a saúde pública não pelo fato de estarem relacionadas à casos de mortalidade, mas pelo alto número de casos de morbidade relacionados, haja vista que no seu geral, não é uma infecção com alto potencial de matar, mas com um elevado potencial de gerar invalidez, principalmente em indivíduos menos favorecidos economicamente e socialmente, que vivem em situações precárias de saúde e saneamento básico.


O Governo Federal, através do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde estabeleceram o protocolo de tratamento contra as parasitoses intestinais e geraram um grande marco no combate às doenças negligenciadas. Cabe ao profissional de laboratório guiar a equipe de diagnóstico através dos achados laboratoriais na construção de um laudo amplo e confiável.


Por Denilson de Araújo e Silva

Graduando em Biomedicina pelo Centro Universitário UNINOVAFAPI

Pós-Graduando em Microbiologia Clínica pelo Instituto GPI