Hematologia laboratorial: desafios e conquistas no período da pandemia

Dentro da rotina de atividades de um laboratório de análises clínicas, a hematologia laboratorial representa uma das técnicas mais utilizadas. A hematologia, que pode ser

entendida como o estudo e análise pormenorizado dos componentes do sangue, tem como princípio básico a identificação de eventuais alterações na composição sanguínea e as suas causas.


Pelo fato de ser a base para uma série de diagnósticos de patologias, fica evidente a grande importância que a hematologia representa não só para a qualidade técnica do laboratório, mas principalmente para a saúde dos pacientes.


É sobre as curiosidades dessa área, avanços tecnológicos e o crescimento dessa área durante o período da pandemia que a gente conversou com a Dra. Kathlenn Bezerra,







coordenadora da Pós-Graduação em Hematologia Laboratorial e Banco de Sangue, do Instituto GPI. Confira o nosso bate-papo:


A HEMATOLOGIA TEM UMA IMPORTÂNCIA ÍMPAR NA ÁREA DA SAÚDE, PRINCIPALMENTE DENTRO DOS LABORATÓRIOS, CERTO?


Sem dúvidas. Eu acredito que a hematologia é uma ciência extremamente importante no laboratório justamente por abrir todo o processo investigativo. A hematologia laboratorial é o coração do laboratório. Quando falamos da população leiga, eles já associam hematologia a um hemograma completo e eles acreditam que o hemograma trará o

check-up completo do seu corpo. Justamente por essa necessidade de parametrizar de alguma forma, a hematologia é o coração do laboratório.


QUANDO NÃO SOMOS DA ÁREA E OUVIMOS FALAR EM HEMATOLOGIA LOGO ASSOCIAMOS AO HEMOGRAMA. ESTAMOS PELO MENOS PARCIALMENTE CORRETOS?



A maioria das pessoas acham que o hemograma completo por si só vai trazer um panorama geral e a situação completa. Todo o estado generalista é mensurado através do hemograma, desse despertar dentro da área laboratorial. Mas a hematologia é bem mais ampla que apenas um hemograma completo. A própria hematologia abre muitas portas, muitos processos investigativos, e toda a clínica médica gira em torno dessa área.


ESTAMOS FALANDO ENTÃO DE UMA ÁREA QUE ESTUDA DE FORMA APROFUNDADA

AS CÉLULAS DO SANGUE. QUAIS AS DOENÇAS MAIS COMUNS IDENTIFICADAS PELOS

PROCEDIMENTOS HEMATOLÓGICOS?


Esse conceito é muito bom, mesmo sendo generalista. A hematologia de fato é a ciência que estuda as células do sangue e é justamente em cima disso que faremos uma análise, seja numérica ou morfológica, para condensar essas condições e possamos entender cada caso.


Através dos procedimentos hematológicos, por exemplo, podemos fazer um rastreio de processos infecciosos, processos inflamatórios, distinção entre viroses, comparações entre infecções viróticas e bacterianas. Conseguimos, por exemplo, estabelecer quais seriam as características mais peculiares da dengue, da Chikungunya ou da Covid.



Dá para distinguir processos inflamatórios, infecciosos, processos neoplásicos, diferenciação de processos anêmicos também. Conseguimos fazer muitos rastreios, pois existem várias neoplasias e doenças hematológicas e processos simplórios que as vezes são deixados de lados, mas podem ser crônicos, agudos ou até hemorrágicos. São várias coisas que podemos apontar através de um hemograma. Desde uma intoxicação alimentar até essas doenças que mencionei.


A função do analista é plantar uma dúvida no clínico para que ele possa dar os devidos encaminhamentos e o paciente possa ser atendido e ajudado de forma mais rápida e assertiva. É preciso ter conhecimento, sensibilidade e maturidade e fazer uma interpretação adequada.


A HEMATOLOGIA É UMA CIÊNCIA NOVA, CERTO?


Muito nova, ela é uma ciência que esteve no seu boom nos anos 1940. É uma história até triste a história do começo da hematologia. Ela começou com pessoas incríveis em situações remotas e condições rudimentares elaboraram conceitos que até hoje são utilizados por nós. Atualmente, esses conceitos são apenas melhorados. A exemplo do conceito de anemia que é o mesmo desde sempre.



O QUE O PROFISSIONAL DA HEMATOLOGIA PRECISA PARA ESTAR APTO A ATUAR

COM TOTAL SEGURANÇA NA ÁREA?


Além de estudar bastante e se capacitar, o profissional precisa olhar para aquele tubo de sangue e entender que por trás daquele exame tem uma pessoa, um pai, uma mãe, um filho. Precisamos entender que estamos lidando com pessoas e com a saúde das pessoas.


Esse carinho é preciso e é uma oportunidade que a hematologia nos dá. Claro que ficamos sensibilizados quando nos deparamos com um idoso, ou uma criança comprometida, mas é preciso ter tranquilidade.


Costumo dizer que a hematologia oferece uma gama de metodologias e exames e vários profissionais que atuam nessas subáreas. E isso é muito importante dentro das análises

clínicas, essa questão da investigação, diagnóstico, acompanhamento e um prognóstico bem feito.


VOCÊ FALA ENTÃO DE TERMOS PROFISSIONAIS MAIS “HUMANOS”, NO MERCADO?



Exatamente. Essa humanização dos profissionais é algo que buscamos transmitir, inclusive, em nossas turmas de pós-graduação. O atendimento, tratamento e acolhimento que devemos ter com os pacientes devem estar todos baseados na condição de que estamos tratando com pessoas. É preciso ter muita sensibilidade.


ACREDITO QUE A TECNOLOGIA TEM UM PAPEL FUNDAMENTAL NA HEMATOLOGIA

LABORATORIAL, PRINCIPALMENTE EM TEMPOS PANDÊMICOS...


Totalmente. A hematologia hoje é uma ciência completamente tecnológica. As normativas hoje nem permitem, por exemplo, que a gente realize hemograma manual. Estamos totalmente relacionados às tecnologias.


Temos, por exemplo, alguns padrões dentro de um hemograma que meu olho não é capaz de apontar, aí a tecnologia vem e faz o seu papel.


TODAS AS SUBÁREAS DA HEMATO ESTÃO AMPARADAS PELA ALTA TECNOLOGIA?



Sim, posso citar algumas, mas todas estão fortemente munidas de tecnologia. Atualmente, a imunohematologia está completamente automatizada, a homeostasia celular da mesma forma, a citometria, por exemplo, também está super ligada à tecnologias de ponta. Hoje, na citometria, é possível fazer o estudo de marcadores celulares em toda linhagem hematopoética, que é algo incrível.


Um laboratório de pequeno porte já tem tecnologias que possibilitam resultados mais fidedignos e reais, assim como temos tecnologia de ponta. Hoje, a gente consegue fazer esfregaço sanguíneo através de máquinas de forma personalizada, sem manuseio humano.


Hoje, é possível fazer exames em crianças que ainda estão no útero e saber se ela tem alguma patologia, o próprio teste de pezinho onde conseguimos fazer a análises de até 14 doenças diferentes. Enfim, falar de hematologia em 2021 é falar de tecnologia! Só não trabalha com automação nessa área quem não quer.


EM TEMPOS DE PANDEMIA, ONDE TODOS FICAM MAIS PREOCUPADOS EM FICAR

DOENTES, A HEMATOLOGIA VEM COM TUDO...HÁ CASOS, POR EXEMPLO, DE

PESSOAS QUE DESCOBREM SEQUELAS DE COVID ATRAVÉS DE EXAMES

LABORATORIAIS QUE INVESTIGAM OS PROCESSOS INFLAMATÓRIOS.



Com certeza. É nesse caso que destacamos por exemplo a importância do hemograma

e o alerta que ele traz para que possam ser investigados outros processos infecciosos

ou inflamatórios que podem estar acometendo o indivíduo. Aliando a experiência e

humanização dos profissionais à tecnologias de ponta é possível salvar vidas através da

hematologia laboratorial.


No vídeo abaixo, assista a entrevista na íntegra sobre a "Hematologia laboratorial: desafios e conquistas no período da pandemia" Por Nehemias Lima - Jornalista