Metodologias de diagnóstico parasitológico: passado x presente

O setor de Parasitologia Clínica de um laboratório é aquele responsável pelo diagnóstico de doenças parasitárias do sangue ou sistema digestivo, este último mais comum. O diagnóstico consiste basicamente em identificar estruturas parasitárias ao exame microscópico, após o preparo de amostras de sangue ou fezes. O Exame Parasitológico de Fezes é considerado um exame simples, barato e rápido, porém com um alto potencial diagnóstico de doenças parasitárias e outros distúrbios que podem acometer o sistema digestivo.


As primeiras metodologias de diagnóstico parasitológico consistiam no preparo de amostras de fezes de modo a filtrar detritos que interferissem na observação ao microscópio e concentrar quaisquer materiais que eventualmente pudessem ser identificados como estruturas condizentes com achados parasitológicos. Abaixo, têm-se uma descrição comparativa das principais metodologias de diagnóstico parasitológico adotado e as evoluções que levaram aos métodos empregados em grandes laboratórios nos dias atuais.


Sedimentação Espontânea

O princípio da sedimentação espontânea baseia-se principalmente na decantação de estruturas parasitárias (como ovos de helmintos ou cistos de protozoários) que sejam mais densos que a água. Por se tratar de um principio de sedimentação espontânea, não se utilizam equipamentos como centrífugas afim de diminuir o tempo do procedimento.


As principais técnicas que adotam este princípio são as técnicas de Hoffman ou Lutz, Pons e Jenner. Nesta metodologia, as fezes são tratadas da seguinte maneira: utilizam-se faixas de gaze para a filtração das fezes, que previamente são homogeneizadas com água destilada em um tubo específico. Não são necessárias grandes porções de fezes, mas é ideal que durante a coleta sejam destacadas porções de toda a extensão do bolo fecal.


O material filtrado é então segregado para que a decantação ocorra sem nenhuma interferência. O tempo mínimo de espera é de 1 hora. Em casos extremos, pode-se esperar entre 12 e 24 horas para que a leitura seja mais eficaz na busca por estruturas parasitárias. Atualmente, muitos laboratórios adotam uma metodologia semelhante, porém otimizada para uma rotina laboratorial intensa.


Centrífugo – Sedimentação


Como citado acima, o método de centrífugo-sedimentação é baseado nos mesmos princípios da sedimentação espontânea, possuindo inclusive a mesma finalidade. Entretanto, para que o processo seja otimizado e mais amostras possam ser lidas em um curto período de tempo, a sedimentação espontânea é substituída por um processo de centrifugação que permite a deposição de estruturas parasitárias no fundo do tubo, permitindo a leitura da amostra em questão de minutos.


Laboratórios de médio e pequeno porte já adotam esta metodologia para que amostras de fezes em grandes quantidades possam ser processadas, analisadas e liberadas em apenas uma manhã, deixando e acumular materiais sujos ou amostras para o dia seguinte.


Flutuação Espontânea


O método de flutuação espontânea mais conhecido é a metodologia proposta por Willis, que utiliza uma solução supersaturada de açúcar ou cloreto de sódio para que ocorra uma ação inversa ao princípio de sedimentação. Neste procedimento, fezes são homogeneizadas em soluções supersaturas, de densidade maior que o conteúdo fecal. Após filtragem em gaze, a solução passa um tempo em repouso para que estruturas parasitárias flutuem. A película superficial da solução é então repassada para uma lâmina e levada à microscopia de luz.


Vale ressaltar que esta metodologia é indicada para a pesquisa de ovos leves de helmintos (como ovos de ancilostomídeos) e cistos de protozoários. Não é um procedimento comumente realizado em laboratórios clínicos de médio e grande porte, sendo substituídos por metodologias mais rápidas e baratas.


Concentração para análise Quantitativa (Kato e Katz)


O método de Kato e Katz é uma metodologia bastante peculiar e extremamente útil no diagnóstico de doenças parasitárias causadas por helmintos. Consiste em um método de tamização e concentração de amostras em uma lâmina recoberta por uma película embebida com um composto químico clarificante conhecido como verde de malaquita. Após as lâminas serem confeccionadas com uma quantidade padrão de amostra, os detritos são clarificados pelo agente químico e a leitura da lâmina se torna mais eficaz, sendo possível a identificação de ovos grandes de helmintos, como ovos de Schistosoma mansoni, causador da doença conhecida como barriga d’agua ou esquistossomose.


Como a metodologia faz uso de uma quantidade padronizada de material fecal, pode-se, através da contagem de ovos, quantificar a carga parasitária que acomete o indivíduo infectado, sendo uma ferramenta eficaz em estudos epidemiológicos envolvendo infecções parasitárias e suas prevalências.


Metodologias Atuais


Atualmente muitos laboratórios têm adotado o uso de metodologias rápidas que agilizam o manejo, a coleta e a análise de amostras de fezes. As principais metodologias são compostas por kits plásticos que contem uma estrutura simplificada de metodologias já existentes, como por exemplo metodologias que envolvem a sedimentação espontânea das amostras por Hoffman ou Lutz.


Esse tipo de kit pode inclusive ser entregue com orientações para o paciente, para que o mesmo possa realizar a coleta de forma simples e eficiente. Trabalhando com muito menos material fecal, essas metodologias permitem que não ocorram acidentes com o material e nem o acúmulo de grandes quantidades de material para descarte biológico. Muitas metodologias possuem conservantes atóxicos para o meio ambiente, que garantem maior viabilidade para as amostras, permitindo que sejam processadas ou reprocessadas após um período de tempo maior que o usual em laboratórios de médio porte, excluindo também a necessidade de refrigeração deste tipo de material, haja vista que a utilização de conservantes não interfere na viabilidade dos achados parasitológicos.


Portanto, pode-se destacar uma evolução nos principais meios de diagnóstico parasitológico que podem ser adotados por laboratórios de pequeno, médio e grande porte. Vários são os fatores que podem interferir na escolha da metodologia ideal para o laboratório clínico, como por exemplo o fluxo dinâmico, a quantidade de amostras que são recebidas diariamente para este setor, o custo benefício envolvendo as metodologias e a praticidade durante a coleta e análise, que podem inclusive cativar o cliente/paciente para a realização do exame. Cabe ao profissional de laboratório definir a melhor estratégia possível para garantir um melhor diagnóstico e uma melhor qualidade no resultado de seus pacientes.


Por Denilson de Araújo e Silva

Graduando em Biomedicina pelo Centro Universitário UNINOVAFAPI

Pós-Graduando em Microbiologia Clínica pelo Instituto GPI