Variante Delta e o alto poder de transmissibilidade

Conforme os vírus vão se reproduzindo, um ou outro erro acaba sendo introduzido no genoma das suas crias virais, de um modo aleatório. Isso cria um enxame de vírus gêmeos não idênticos, em quantidades diferentes no meio dessa sopa viral. Mas sempre tem um grupinho desses gêmeos que se destaca e que domina os demais.

Com o coronavírus não foi diferente e tivemos o surgimento da chamada variante Delta. Até o fechamento desta matéria, o Brasil havia chegado a 570 casos confirmados de pessoas infectadas com essa variante do vírus. O balanço do Ministério da Saúde computou dados que mostram um número é 98% maior, quase o dobro, na comparação com o balanço divulgado dias antes, mostrando o rápido avanço da cepa no país.


O Rio de Janeiro segue como o epicentro da variante no Brasil, sendo o estado com mais casos da nova cepa do coronavírus. Outros 12 e o Distrito Federal compõem a lista com casos identificados e notificados à pasta. Entre os registros de infectados pela doença, houve 36 mortes no país, sendo 19 delas no estado do Paraná.


Para falar sobre esse assunto convidamos a professora Alyne Rodrigues de Araújo, doutora em Biotecnologia e coordenadora da pós-graduação em microbiologia do Instituto GPI. Confira:

Dra. Alyne Rodrigues coordenadora da Pós-Graduação em Microbiologia Clínica do Instituto GPI.


EXPLICA PRA GENTE O QUE SÃO ESSAS VARIANTES DOS VÍRUS, A EXEMPLO DO CORONAVÍRUS.


Tomando o coronavírus como exemplo, a explicação é a seguinte: o vírus original surgiu na China, no fim de 2019, e a partir do momento que esse vírus começa a se espalhar e ter uma alta transmissibilidade, ele começa a replicar o material genético e neste momento podem acontecer algumas falhas que acontecem com uma frequência superior àquela que acontece no nosso organismo, principalmente em vírus que contém material genético de RNA (como é o caso do coronavírus).


Então essas falhas levam a mutações. Quando um vírus sofre mutação, com material genético diferente do material genético do vírus original, chamamos de variante. Neste exemplo, ele continua sendo SARS COV-2, mas tem uma pequena modificação no material genético.


ESSAS MODIFICAÇÕES CAUSAM GRANDES IMPACTOS NA PATOGENICIDADE E TRANSMISSIBILIDADE DO VÍRUS?


A maioria delas não. Algumas trazem sim, e são aquelas que chamam a atenção da comunidade científica e do mundo inteiro, então a OMS lança um alerta sobre essa variante para conhecimento de todos, seja em relação à resposta imunológica do paciente ou para a forma como o vírus vai desenvolver a doença no paciente.


O QUE A VARIANTE DELTA APRESENTA DE DIFERENCIAL?


Essa variante começou a chamar atenção quando apareceu na índia, em 2020, mas também quando começaram a aparecer casos dela no Reino Unido, local em que as pessoas já estavam vacinadas e ainda assim começaram a ser infectadas com a variante. Isso chamou a atenção do mundo.


A variante Delta tem um maior potencial de transmissibilidade. Ela sofre uma mutação na proteína Spike em dois lugares. Essa proteína Spike é a que vai permitir a entrada do vírus na célula. Essas mutações fazem com que o vírus consiga entrar mais facilmente na célula e a pessoa porta o vírus por mais tempo sem desenvolver sintomas e transmitindo muito mais essa variante.


O VÍRUS ENTÃO ENTRA EM NOSSO ORGANISMO COM MAIS FACILIDADE. É ISSO?


Sim, por conta dessas mutações ele consegue se livrar das nossas defesas. Alguns anticorpos nossos que iriam reconhecer o vírus e impedir que ele entrasse na célula, por exemplo, não vão reconhecer, então ele entra mais facilmente e infecta um maior número de células, se multiplicando mais rápido.


AS VACINAS EXISTENTES TÊM EFICÁCIA PERANTE ESSA MUTAÇÃO DO VÍRUS?


Sim, há estudos que mostram que existe um pequeno percentual de diminuição da ligação de anticorpos neutralizantes a esse vírus, mas ainda assim as vacinas impedem a transmissibilidade, o que impede a geração de novas variantes. Esses estudos foram realizados com número de pacientes vacinados com as duas doses da vacina.


É INTERESSANTE DESTACAR QUE ALÉM DESSAS VACINAS, AS DEMAIS MEDIDAS DE SEGURANÇA DEVEM CONTINUAR SENDO ADOTADAS, CERTO?


Sim, claro. A pessoa usando a máscara, evitando lugares fechados, mantendo o distanciamento, evita essa transmissibilidade do vírus ainda que seja a variante Delta. É indicado que usemos de preferência a máscara Pff2 que tem duas camadas de tecido, inclusive. E claro, a vacina é fundamental. Aí em Teresina já começou a não ter mortes, aqui em Parnaíba a UTI Covid foi fechada, e tudo isso ficará ainda melhor se as pessoas se vacinarem.


NO PIAUÍ, TEMOS ESSA VARIANTE?


Por enquanto não sabemos se ainda não tem ou se não foi sequenciado. O melhor é continuar nos prevenindo como sempre. É interessante destacarmos também que a variante Delta apresenta um tempo maior para que a pessoa apresenta sintomas, não há perda de olfato e paladar e os sintomas se confundem ainda mais com os de uma gripe. Então todo cuidado é pouco! Vacinas devem ser tomadas e os cuidados de sempre devem ser mantidos.


No vídeo abaixo, assista a entrevista na íntegra sobre "Variante Delta e o alto poder de transmissibilidade" Por Nehemias Lima - Jornalista.